AUTORES: Rafael Arrua da Silveira | Bruna Warmling · Ewerton Cardoso · Mateus Rycheski
INSTITUIÇÕES: Scientia Labs | Institutovet | Hospital Veterinário Florianópolis (HVF)
DATA: 16 de julho de 2026
RESUMO
O perfil hepático é um dos painéis bioquímicos mais solicitados na rotina de pequenos animais, mas sua interpretação correta exige compreender a diferença fisiopatológica entre enzimas de lesão hepatocelular (ALT, AST) e enzimas de colestase (fosfatase alcalina, GGT), além de reconhecer que nenhuma delas é, isoladamente, um teste de função hepática. Este artigo revisa a fisiologia e a interpretação clínica dessas quatro enzimas, discute o reconhecimento de padrões de lesão (hepatocelular, colestático e misto) e detalha a abordagem sistemática para diferenciação das icterícias pré-hepática, hepática e pós-hepática em cães e gatos. São apresentados fluxogramas de raciocínio clínico, tabelas de referência e três casos clínicos comentados que ilustram a integração entre bioquímica, hemograma e história clínica na prática de pequenos animais. Conclui-se que a leitura de padrões — e não de valores isolados — é o que efetivamente orienta a investigação diagnóstica do paciente hepatopata.
PALAVRAS-CHAVE: Perfil hepático; ALT; AST; GGT; Fosfatase alcalina; Icterícia.

1. INTRODUÇÃO
Poucos painéis bioquímicos são tão frequentemente solicitados — e tão frequentemente mal interpretados — quanto o perfil hepático. Um erro conceitual recorrente na rotina clínica é tratar ALT, AST, fosfatase alcalina (FA) e GGT como testes de “função hepática”: na realidade, essas enzimas são marcadores sensíveis, porém pouco específicos, de lesão ou de colestase, e não medem diretamente a capacidade funcional do fígado (TODAY’S VETERINARY PRACTICE, 2022). Um fígado gravemente doente, fibrótico ou atrofiado, pode inclusive apresentar enzimas dentro do intervalo de referência, justamente por restar pouco parênquima funcional capaz de gerar extravasamento enzimático (ROYAL CANIN ACADEMY, 2023).
Este artigo revisa, de forma aplicada, a fisiologia e a interpretação dessas quatro enzimas hepáticas, com foco na leitura de padrões — hepatocelular, colestático ou misto — e na diferenciação sistemática das icterícias pré-hepática, hepática e pós-hepática, tema que costuma gerar dúvida mesmo entre profissionais experientes. A opção pelo formato de casos clínicos comentados busca atender à demanda de estudantes e profissionais por conteúdo que traduza achados bioquímicos em conduta clínica imediata.
1.1 Relevância na rotina laboratorial
A doença hepatobiliar figura entre os diagnósticos mais comuns em medicina interna de pequenos animais, e o perfil bioquímico hepático costuma ser o primeiro sinal de alerta, frequentemente detectado em exames de rotina antes de qualquer sinal clínico evidente. Esse padrão de detecção incidental reforça a importância de uma interpretação criteriosa: elevações discretas e isoladas de FA, por exemplo, são extremamente comuns em cães idosos e nem sempre indicam doença hepática progressiva, mas sim causas extra-hepáticas benignas.
1.2 Por que padrões importam mais que valores isolados
A magnitude do aumento enzimático deve sempre ser interpretada em múltiplos do limite superior do intervalo de referência, e não em valores absolutos, já que os intervalos variam entre laboratórios e métodos analíticos. A literatura recomenda classificar o aumento como discreto (menos de 3 vezes o limite superior), moderado (3 a 9 vezes) ou acentuado (mais de 10 vezes), e observar a tendência ao longo de mensurações seriadas — estável, progressiva ou flutuante — que frequentemente é mais informativa do que um único valor isolado (MERCK VETERINARY MANUAL, 2024).
Tabela 1 — Classificação da magnitude de elevação enzimática hepática
| Categoria | Múltiplo do LSR | Significado Clínico |
| Discreta | < 3× | Frequentemente inespecífica; reavaliar em contexto |
| Moderada | 3–9× | Lesão ativa relevante; investigar causa |
| Acentuada | > 10× | Lesão hepatocelular grave; necrose extensa provável |
Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.
2. ENZIMAS DE LESÃO HEPATOCELULAR: ALT E AST
A alanina aminotransferase (ALT) é uma enzima citoplasmática concentrada principalmente em hepatócitos, sendo liberada na circulação quando há necrose celular ou aumento da permeabilidade de membrana. É considerada a enzima mais hepatoespecífica do painel em cães, embora dano muscular grave ou hemólise ex vivo possam elevá-la discretamente (TODAY’S VETERINARY PRACTICE, 2022). A aspartato aminotransferase (AST), por sua vez, está presente não apenas em hepatócitos, mas também em músculo esquelético, miocárdio e hemácias, exigindo maior cautela interpretativa: sua elevação isolada, sem acompanhamento de ALT, deve levantar suspeita de origem muscular ou hemolítica antes de ser atribuída ao fígado (VETEXPLAINS, 2026).
3. ENZIMAS DE COLESTASE: FOSFATASE ALCALINA E GGT
A fosfatase alcalina (FA) não é constitutiva do tecido hepático saudável; sua elevação decorre de indução enzimática pelo acúmulo de sais biliares e não propriamente de extravasamento celular, o que explica por que a colestase eleva a FA mesmo sem necrose hepatocelular concomitante (TODAY’S VETERINARY PRACTICE, 2022). Em cães, a elevação de FA é o achado bioquímico mais comum em exames de rotina, mas sua especificidade é baixa: corticosteroides, anticonvulsivantes e doença óssea são causas extra-hepáticas frequentes.
Tabela 2 — Causas extra-hepáticas comuns de elevação de FA e GGT
| Enzima | Causas extra-hepáticas |
| FA | Corticoterapia, anticonvulsivantes, crescimento ósseo, neoplasia óssea, hiperadrenocorticismo |
| GGT | Colangite, uso de glicocorticoides em menor grau; pouco afetada por doença óssea |
3.1 Particularidades em filhotes
Filhotes e gatos neonatos apresentam atividades de FA e GGT fisiologicamente muito mais altas do que adultos, refletindo adaptações da transição da vida fetal e neonatal, ingestão de colostro e efeitos do crescimento ósseo. Essas enzimas costumam aumentar acentuadamente nas primeiras 24 horas após o nascimento, exigindo intervalos de referência ajustados por idade.
4. RECONHECIMENTO DE PADRÕES DE LESÃO
A interpretação eficiente do perfil hepático depende do reconhecimento de três padrões principais: hepatocelular, colestático e misto.
Tabela 3 — Padrões de elevação enzimática e principais diferenciais
| Padrão | Enzimas | Diferenciais principais |
| Hepatocelular | ALT/AST ≫ FA/GGT | Hepatite aguda/crônica, toxicidade, neoplasia, hipóxia |
| Colestático | FA/GGT ≫ ALT/AST | Obstrução biliar, colangite, doença induzida por fármacos |
| Misto | Ambos elevados | Colangite felina, hepatopatia por fenobarbital, doença avançada |
5. ALÉM DAS ENZIMAS: TESTES DE FUNÇÃO HEPÁTICA
Como as enzimas hepáticas refletem lesão ou colestase, e não função, a avaliação da capacidade funcional do fígado exige testes complementares específicos, como os ácidos biliares séricos, albumina, ureia e glicose.
Tabela 4 — Testes funcionais complementares ao perfil enzimático hepático
| Teste | O que avalia | Achado sugestivo |
| Ácidos biliares | Captação, conjugação e excreção biliar | Elevados em shunt e hepatopatia crônica |
| Albumina | Síntese hepática | Reduzida em disfunção crônica |
| Ureia sérica | Ciclo da ureia | Reduzida em insuficiência hepática grave |
| Coagulograma | Síntese de fatores de coagulação | Prolongado em colestase ou disfunção |
6. DIFERENCIAÇÃO DAS ICTERÍCIAS
A icterícia representa a manifestação clínica de hiperbilirrubinemia e deve ser sistematicamente classificada em três categorias fisiopatológicas: pré-hepática, hepática e pós-hepática.
6.1 Icterícia pré-hepática (hemolítica)
Ocorre quando a destruição de hemácias excede a capacidade hepática de captação e conjugação de bilirrubina. Só se manifesta clinicamente quando a hemólise é moderada a grave.
6.2 Icterícia hepática
Associada à disfunção hepatocelular ou colestase intra-hepática, resultando em acúmulo tanto de bilirrubina conjugada quanto não conjugada.
6.3 Icterícia pós-hepática (obstrutiva)
Decorre de obstrução ao fluxo biliar extra-hepático, gerando refluxo predominante de bilirrubina conjugada para a circulação.

Tabela 5 — Diferenciação das icterícias: achados de apoio
| Tipo | Hematócrito | Achados de apoio |
| Pré-hepática | Anemia moderada/grave | Esferocitose, autoaglutinação, reticulocitose |
| Hepática | Normal a leve anemia | Enzimas hepatocelulares elevadas, imagem alterada |
| Pós-hepática | Normal | FA/GGT muito elevadas, fezes acólicas, dilatação de vias biliares |
7. ARMADILHAS COMUNS DE INTERPRETAÇÃO
- Hemólise in vitro: Pode elevar artificialmente AST e ALT.
- Lipemia: Interfere em métodos colorimétricos de bilirrubina.
- Enzimas normais: Não excluem cirrose ou fibrose avançada.
- Fármacos: Fenobarbital e corticoides induzem enzimas sem necessariamente indicar falência.
8. CASOS CLÍNICOS
Caso 1 — Canino, fêmea, 5 anos, icterícia aguda
Interpretação: Hematócrito de 18% com enzimas hepáticas normais e presença de esferócitos. Diagnóstico: Icterícia pré-hepática (hemolítica), compatível com AHIM.
Caso 2 — Felino, fêmea, 9 anos, anorexia prolongada
Interpretação: Padrão colestático com FA (310 U/L) desproporcional à GGT em gato anoréxico. Diagnóstico: Lipidose hepática felina.
Caso 3 — Canino, macho, 7 anos, dor abdominal e fezes claras
Interpretação: FA extremamente elevada (1450 U/L) com fezes acólicas. Diagnóstico: Icterícia pós-hepática (obstrução biliar).
9. CONCLUSÃO
O perfil hepático fornece informação valiosa sobre lesão e colestase, mas não deve ser interpretado como teste de função hepática isolado. O reconhecimento de padrões associado à magnitude e à tendência temporal é o que efetivamente orienta a investigação diagnóstica. Diante de icterícia, a sequência lógica — hematócrito primeiro, depois padrão enzimático, depois imagem — evita erros diagnósticos graves.
REFERÊNCIAS
CENTER, S. A. Interpretation of liver enzymes. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 2007.
TODAY’S VETERINARY PRACTICE. Liver enzyme interpretation and liver function tests, 2022.
MERCK VETERINARY MANUAL. Enzyme activity in hepatic disease in small animals, 2024.