Urinálise: Além da Tira Reagente – O Sedimento Urinário e a Correlação Densidade/Proteinúria na Prática Clínica

Rafael Arrua da Silveira

Bruna Warmling · Ewerton Cardoso · Mateus Rycheski

Institutovet | Hospital Veterinário Florianópolis (HVF) | Scientia Labs

Contato: srafs2013@gmail.com | www.institutovet.com | hvflorianopolis.com.br | scientialabs.com.br

Resumo

A tira reagente permanece como a triagem mais utilizada na urinálise de cães e gatos, mas sua leitura isolada subestima achados clinicamente relevantes e pode gerar tanto falsos-positivos quanto falsos-negativos. Este artigo revisa a fisiologia e a interpretação do sedimento urinário – células, cilindros, cristais e bactérias –, discute a acurácia dos analisadores automatizados de sedimento e detalha, com base em evidência recente, por que a proteinúria detectada em fita não pode ser interpretada sem o contexto da densidade urinária (USG). São apresentados fluxogramas de raciocínio clínico, tabelas de referência e três casos clínicos comentados que ilustram a integração entre sedimento, densidade e história clínica na prática de pequenos animais. Conclui-se que a urinálise completa – e não a tira reagente isolada – é o padrão mínimo aceitável para decisões clínicas seguras.

Palavras-chave: Urinálise; Sedimento urinário; Densidade urinária; Proteinúria; Cilindros; Cristalúria.

1  Introdução

A tira reagente (dipstick) é, com razão, o exame mais utilizado na rotina de pequenos animais: rápida, barata e amplamente disponível. No entanto, seu uso isolado tem limitações bem documentadas – é insensível para leucócitos em gatos, pode gerar falsos-positivos para proteína em urina muito concentrada ou alcalina, e não informa absolutamente nada sobre cilindros, cristais, células epiteliais ou bactérias, elementos que frequentemente carregam o verdadeiro diagnóstico (YADAV et al., 2020). A urinálise completa – físico-química associada ao exame microscópico do sedimento – continua sendo, segundo a literatura internacional, a forma mais custo-efetiva de rastrear tanto doença urinária primária quanto doença sistêmica em fase inicial (YADAV et al., 2020).

Este artigo tem dois objetivos complementares: primeiro, revisar de forma aplicada os elementos do sedimento urinário que vão além do resultado da tira – células, cilindros, cristais e bactérias – e sua real relevância clínica; segundo, aprofundar um ponto frequentemente negligenciado na rotina, mas central para a interpretação correta de qualquer resultado de proteína urinária: a correlação entre densidade urinária (USG) e proteinúria, e sua leitura conjunta no contexto de hidratação e função renal. A opção pelo formato de casos clínicos comentados busca atender à demanda de estudantes e profissionais por conteúdo que traduza achados microscópicos em conduta clínica imediata, eixo editorial já adotado nesta série (SILVEIRA et al., 2025).

1.1  Por que a urinálise completa continua sendo subutilizada

Apesar de seu baixo custo e ampla disponibilidade, o exame microscópico do sedimento urinário permanece, na prática, um dos componentes mais negligenciados da urinálise de rotina. Levantamentos sobre uso de laboratório em clínicas de pequenos animais identificam como principais barreiras a falta de tempo do operador, ausência de treinamento específico em microscopia e disponibilidade limitada de centrífuga e microscópio funcionais na rotina ambulatorial (THE VETERINARY NURSE, 2025). Esse cenário favorece decisões clínicas baseadas exclusivamente no resultado colorimétrico da tira, o que – como será detalhado ao longo deste artigo – pode tanto gerar investigações desnecessárias quanto atrasar o diagnóstico de doenças estruturais do trato urinário e dos rins.

Do ponto de vista de gestão de qualidade laboratorial, a incorporação sistemática do sedimento urinário e do registro da densidade em toda urinálise de rotina representa uma mudança de baixo custo e alto impacto na acurácia diagnóstica – exatamente o tipo de intervenção que separa um laudo meramente descritivo de um laudo clinicamente útil.

1.2  Cuidados pré-analíticos

A confiabilidade do sedimento urinário depende diretamente do tempo entre coleta e leitura. Recomenda-se que a amostra seja processada em até uma a duas horas após a coleta; atrasos favorecem alterações de temperatura e pH que provocam dissolução ou precipitação de cristais, degeneração de cilindros e lise celular, podendo tanto mascarar quanto simular achados patológicos (VALENCIANO et al., 2017 apud THE VETERINARY NURSE, 2025). Estudos de estabilidade demonstraram que o tempo e a temperatura de armazenamento alteram de forma mensurável o pH, a densidade e a formação de cristais em amostras de cães, reforçando que resultados de amostras refrigeradas ou tardias devem ser interpretados com cautela adicional (ALBASAN et al., 2003).

1.3  Método de coleta e impacto na interpretação

O método de obtenção da amostra também influencia diretamente a interpretação do sedimento. Amostras coletadas por cistocentese são consideradas o padrão-ouro para avaliação de hematúria, piúria e bacteriúria, pois eliminam a contaminação pela uretra distal, prepúcio, vagina ou pele. Amostras obtidas por micção espontânea (free catch), embora práticas, podem conter contaminação por células escamosas, bactérias ambientais e, ocasionalmente, material vegetal, o que exige maior cautela na interpretação de achados discretos (CALLENS; BARTGES, 2015). Já amostras obtidas por sondagem uretral podem apresentar maior número de células epiteliais transicionais decorrentes de trauma mecânico local, achado que não deve ser confundido com processo neoplásico ou inflamatório espontâneo.

Essa distinção é particularmente relevante para a interpretação de leucocitúria discreta e bacteriúria de baixo grau: um resultado que seria preocupante em amostra de cistocentese pode ser absolutamente esperado em amostra obtida por micção espontânea. Sempre que um achado de sedimento for limítrofe ou clinicamente inesperado, a repetição da coleta por cistocentese é a conduta mais custo-efetiva antes de se avançar para investigação complementar mais invasiva ou onerosa.

2  Além da tira: o exame do sedimento urinário

2.1  Elementos celulares

Em amostras obtidas por cistocentese, até cinco hemácias e cinco leucócitos por campo de grande aumento são considerados dentro da normalidade em cães e gatos saudáveis; valores acima disso sugerem hemorragia ou inflamação do trato urinário, respectivamente (WVS ACADEMY, 2023). É importante lembrar que a ausência de bactérias no sedimento não exclui infecção – a sensibilidade da microscopia para bacteriúria é limitada, sobretudo em infecções com baixa contagem bacteriana ou uso prévio de antimicrobianos (THE VETERINARY NURSE, 2025). Células epiteliais transicionais em pequena quantidade são esperadas, especialmente em amostras obtidas por sondagem; sua presença em grande número, associada a atipia, levanta suspeita de neoplasia urotelial e justifica avaliação citológica complementar.

Tabela 1 – Valores de referência aproximados do sedimento urinário (cistocentese)

ElementoValor esperado
Hemácias<5/campo (grande aumento)
Leucócitos<5/campo (grande aumento)
Células epiteliaisRaras a ocasionais
Cilindros hialinos0–2/campo (pequeno aumento)
BactériasAusentes (cistocentese)
CristaisVariável; interpretar com pH e clínica

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

2.2  Cilindros: janela para o néfron

Os cilindros se formam no lúmen dos túbulos renais, moldados pela proteína de Tamm-Horsfall, e podem incorporar células, gordura ou debris. Em condições normais, são raros – um a dois cilindros hialinos por campo de pequeno aumento podem ser observados até em animais saudáveis (WVS ACADEMY, 2023). Sua presença em maior número, independentemente do tipo específico, é sinal de alerta para lesão tubular ativa, e sua ausência não exclui doença, já que a eliminação de cilindros é intermitente (WVS ACADEMY, 2023).

Tabela 2 – Tipos de cilindros urinários e significado clínico

TipoSignificado clínico
HialinoInespecífico; pode ocorrer em baixa quantidade em animais saudáveis, febre ou exercício
Celular (epitelial/leucocitário/eritrocitário)Lesão tubular ativa; nefrite intersticial, isquemia, inflamação
GranulosoDegeneração celular tubular; necrose tubular aguda, nefrotoxicose
CéreoEstase tubular prolongada; estágio avançado de lesão tubular crônica
GordurosoLipidúria associada a síndrome nefrótica ou doença tubular

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

2.3  Cristalúria: interpretação sem alarmismo

A cristalúria é um dos achados mais frequentemente supervalorizados na rotina clínica. Cristais de estruvita ocorrem em mais de 50% dos cães saudáveis e, na ausência de infecção do trato urinário por bactérias produtoras de urease, não se associam à formação de urólitos (dvm360, 2026). O tipo de cristal depende do pH urinário, da concentração de solutos, da temperatura e do tempo decorrido até o exame – por isso cristalúria não é sinônimo de urolitíase, tampouco sua ausência a descarta (ScienceDirect – Crystalluria, 2020).

Tabela 3 – Principais cristais urinários em cães e gatos

CristalpH típicoRelevância
EstruvitaAlcalinoFrequente e incidental; risco se associado a ITU por bactéria urease-positiva
Oxalato de cálcioÁcido a neutroPode indicar hipercalciúria, intoxicação por etilenoglicol se em grande quantidade
Urato de amônioÁcidoInvestigar shunt portossistêmico e insuficiência hepática, sobretudo fora de raças predispostas
BilirrubinaVariávelPequena quantidade pode ser normal em cães; investigar se abundante

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

2.4  Bacteriúria e correlação com cultura

A microscopia do sedimento é útil, mas imperfeita, para prever infecção do trato urinário. Estudo prospectivo em cães comparando sedimento corado e não corado com urocultura encontrou associação significativa entre a presença de neutrófilos e bactérias no sedimento e cultura positiva, mas destacou que erros pré-analíticos e bacteriúria subclínica limitam a interpretação isolada da microscopia (Urinary Cytology – PMC9228025, 2022). Em gatos, a contagem automatizada de leucócitos mostrou sensibilidade de 82% e especificidade de 75% para prever bacteriúria confirmada por cultura, reforçando que a decisão de solicitar urocultura não deve se basear exclusivamente no sedimento (uso do SediVue para prever necessidade de cultura em gatos, 2021).

2.5  Automação do sedimento urinário

Analisadores automatizados de sedimento, como o IDEXX SediVue Dx, tornaram-se comuns em clínicas de pequenos animais por reduzirem o tempo de análise e a dependência de um operador treinado. Estudos de validação mostram desempenho heterogêneo conforme o elemento avaliado.

Tabela 4 – Desempenho de analisadores automatizados de sedimento vs. microscopia manual

ElementoSensib.Observação
Hemácias70–100%Boa concordância geral (BLANCO et al., 2022)
Leucócitos70–100%Boa concordância geral (BLANCO et al., 2022)
Cilindros53,7%Baixa sensibilidade, alta especificidade ≥90% (VIENNET et al., 2021)
Cristais/bactériasVariávelDesempenho inferior para bactérias e cilindros; revisão sempre recomendada (HERNANDEZ et al., 2019)

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

A recomendação prática decorrente desses estudos é clara: analisadores automatizados são úteis para triagem rápida de rotina, mas resultados negativos ou equívocos para cilindros e bactérias – elementos de baixa sensibilidade nesses sistemas – devem ser confirmados por microscopia manual sempre que houver suspeita clínica relevante (VIENNET et al., 2021).

3  Correlação densidade/proteinúria

Este é o ponto mais frequentemente negligenciado na leitura da tira reagente: o resultado semiquantitativo de proteína (traços, 1+, 2+, 3+) reflete uma concentração, não uma quantidade de proteína perdida. Em outras palavras, 1+ de proteína em uma urina muito diluída representa perda proteica proporcionalmente maior do que 1+ em uma urina muito concentrada – exatamente o problema que a relação proteína:creatinina urinária foi criada para resolver, mas que, na prática diária, muitos profissionais ainda avaliam apenas pela leitura colorimétrica da fita, sem considerar a densidade (dvm360 – Urine specific gravity measurement, 2026).

Tira reagente positiva ou suspeita clínica de doença urinária
↓  Sempre registrar USG antes de interpretar proteína/glicose
↓  Sedimento ativo? (RBC/WBC/cilindros)
Sim → Inflamação/hemorragia: investigar cultura e imagem  |  Cilindros presentes: suspeitar lesão tubular ativa
Não → Sedimento inativo: reavaliar proteinúria via UPC
Interpretar proteinúria SEMPRE à luz da USG e do sedimento

Figura 1 – Fluxograma de raciocínio clínico integrando sedimento urinário, densidade urinária (USG) e proteinúria. Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

3.1  Classificação da densidade urinária

Tabela 5 – Classificação da densidade urinária (USG) e interpretação

TermoUSG aprox.Significado
Hipostenúria<1,008Diluição ativa; capacidade de concentração preservada
Isostenúria1,008–1,012Perda da capacidade de concentrar e diluir
Adequada (cão)>1,030Concentração renal preservada em paciente desidratado
Adequada (gato)>1,035Concentração renal preservada em paciente desidratado

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

A leitura da densidade deve sempre considerar o estado de hidratação: em um paciente desidratado com rim funcionalmente íntegro, espera-se urina concentrada (USG >1,030 em cães e >1,035 em gatos); se isso não ocorrer, há disfunção da capacidade de concentração, estrutural ou funcional (IRIS KIDNEY, 2024; WSAVA2008, 2010). É importante lembrar que a perda da capacidade de concentração só se torna detectável após comprometimento de aproximadamente dois terços da função renal, o que reforça, mais uma vez, que USG normal não exclui doença renal inicial (Veterian Key, 2016).

3.2  Por que a proteinúria não pode ser lida isoladamente

Um estudo recente e diretamente relevante para a rotina de bancada avaliou a razão entre o resultado semiquantitativo de proteína na fita e a densidade urinária (dipstick-to-USG ratio, DUR) como forma de corrigir a leitura da tira pela concentração da amostra. Usando um ponto de corte de DUR de 1,4 em cães, a sensibilidade e especificidade para detectar UPC >0,5 foram de 89% e 83%, respectivamente; em gatos, um DUR de 2,1 apresentou sensibilidade de 70% e especificidade de 100% para UPC >0,4 (BARCHILON et al., 2024). Apesar desses resultados promissores para identificação de proteinúria, o valor preditivo negativo do método foi considerado insuficiente para excluir proteinúria com segurança, de modo que a UPC continua sendo o exame de escolha para confirmação e monitoramento (BARCHILON et al., 2024).

Vale destacar um achado relevante desse mesmo estudo: ao contrário do que classicamente se ensina, a correlação entre pH urinário e resultado falso-positivo de proteína na tira mostrou-se fraca na maioria dos trabalhos recentes, e a alcalinidade isolada não explicou a maior parte das discrepâncias observadas entre tira e UPC (BARCHILON et al., 2024). Isso não elimina a recomendação de cautela em urinas muito alcalinas, mas relativiza um dogma antigo da urinálise.

Tabela 6 – Leitura da proteinúria em fita ajustada pela densidade (conceito de razão tira/USG)

CenárioUSGInterpretação
1+ prot. em urina diluída1,010Proteinúria proporcionalmente maior; investigar com UPC
1+ prot. em urina concentrada1,045Pode ser proporcionalmente discreta; ainda assim confirmar com UPC
Traços em urina muito concentrada>1,050Frequentemente sem relevância clínica

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

3.3  Densidade, hidratação e função renal: quando desconfiar

A interpretação conjunta de densidade, hidratação e proteinúria orienta três cenários clínicos distintos que devem ser sistematicamente considerados na rotina:

  • Paciente desidratado com USG adequada e proteinúria discreta: provável proteinúria fisiológica de concentração; reavaliar após correção da hidratação antes de investigar further.
  • Paciente normo-hidratado com USG isostenúrica e qualquer grau de proteinúria: cenário de maior suspeita para doença renal ativa, sobretudo se associado a cilindrúria; investigar com UPC, SDMA e imagem.
  • Paciente hiperhidratado (fluidoterapia) com USG inadequadamente concentrada: pode mascarar proteinúria real por diluição iatrogênica; sempre que possível, avaliar UPC antes do início da fluidoterapia ou aguardar estabilização (IRIS KIDNEY, 2024).
Aplicação clínica imediata: nunca interprete o resultado de proteína da tira reagente sem registrar a densidade urinária na mesma amostra. Um resultado “1+” pode significar coisas completamente diferentes dependendo da USG – e essa é, provavelmente, a fonte mais comum de erro de interpretação na urinálise de rotina.
Mesma leitura “1+” na tira
USG 1,010 → UPC alta (proteína real elevada)
USG 1,045 → UPC baixa (proteína real discreta)
A mesma leitura semiquantitativa pode corresponder a UPC muito diferentes conforme a densidade da amostra.

Figura 2 – Representação conceitual do efeito da densidade urinária sobre a leitura semiquantitativa de proteína na tira reagente, com base em Barchilon et al. (2024). Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

4  Diferenciação de hematúria, hemoglobinúria e mioglobinúria

Um resultado positivo para “sangue” na tira reagente não distingue entre três origens fisiopatologicamente distintas: hemácias intactas (hematúria verdadeira), hemoglobina livre (hemoglobinúria, decorrente de hemólise intravascular) e mioglobina (mioglobinúria, decorrente de rabdomiólise). Essa distinção tem implicação clínica direta, já que hemoglobinúria e mioglobinúria indicam processos sistêmicos potencialmente graves – anemia hemolítica imunomediada, babesiose, intoxicações ou lesão muscular extensa – e não doença primária do trato urinário.

O sedimento urinário é a ferramenta mais acessível para essa diferenciação: a presença de hemácias intactas ao exame microscópico confirma hematúria verdadeira, enquanto sua ausência em uma amostra com tira fortemente positiva para sangue sugere hemoglobinúria ou mioglobinúria. Nesses casos, a inspeção do plasma (ou soro) é um passo diagnóstico simples e frequentemente subutilizado: plasma avermelhado sugere hemólise intravascular, enquanto plasma de coloração normal associado à urina escura levanta suspeita de mioglobinúria, achado que deve ser correlacionado com atividade sérica de creatina quinase (CK) marcadamente elevada.

Tabela 7 – Diferenciação laboratorial de pigmentúrias

OrigemSedimentoAchado de apoio
HematúriaHemácias presentesSedimento ativo, possível causa local
HemoglobinúriaHemácias ausentesPlasma avermelhado, anemia regenerativa
MioglobinúriaHemácias ausentesPlasma normal, CK sérica muito elevada

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

Essa abordagem simples e de baixo custo – sedimento associado à inspeção visual do plasma – frequentemente evita solicitações desnecessárias de exames de imagem do trato urinário em pacientes cuja causa real da coloração anormal da urina é sistêmica, e não local.

Em situações nas quais a densidade urinária isolada não é suficiente para esclarecer o quadro – por exemplo, pacientes poliúricos e polidípsicos com USG persistentemente na faixa isostenúrica, mas sem azotemia –, a mensuração da osmolalidade urinária e plasmática, quando disponível, pode agregar valor diagnóstico adicional. Diferentemente da densidade, que é influenciada pelo número e pelo peso molecular das partículas dissolvidas (sendo, portanto, sensível à presença de glicose, proteína ou meios de contraste), a osmolalidade reflete exclusivamente o número de partículas em solução, oferecendo uma medida mais fiel da capacidade de concentração renal em cenários complexos (Veterian Key – Clinical Evaluation of the Urinary Tract, 2016).

Testes provocativos, como a prova de restrição hídrica gradual sob supervisão, permanecem indicados em casos selecionados de diabetes insípido central ou nefrogênico, mas exigem monitoramento rigoroso e não substituem a investigação inicial completa com urinálise, bioquímico sérico e, quando indicado, imagem abdominal. Na grande maioria dos casos de rotina, entretanto, a interpretação cuidadosa da USG associada à história de hidratação, medicação em uso (diuréticos, corticosteroides) e achados de sedimento é suficiente para orientar a investigação sem necessidade de testes mais complexos e onerosos.

5  Casos clínicos

Caso 1 – Canino, macho, 6 anos, exposição recente a AINE

Anamnese: uso de anti-inflamatório não esteroidal por 10 dias para claudicação, apresentando-se com hiporexia e vômitos ocasionais. Exame físico com leve desidratação (5%).

Caso 1 – Achados laboratoriais

ParâmetroResultadoReferênciaInterpretação
USG1,0111,015–1,045Isostenúria
Proteína (fita)2+NegativoElevada
SedimentoCilindros granulosos 4–6/campo0–2Aumentado
Creatinina1,6 mg/dL0,5–1,4Elevada

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

Interpretação: a combinação de isostenúria inapropriada para o grau de desidratação, cilindros granulosos numerosos e creatinina discretamente elevada é altamente sugestiva de lesão tubular aguda, compatível com nefrotoxicidade por AINE. A proteinúria de 2+ na fita, somada à USG baixa, reforça perda proteica proporcionalmente significativa – exatamente o tipo de leitura que se perderia caso a proteína fosse avaliada isoladamente sem registrar a densidade.

Conduta: suspensão imediata do AINE, fluidoterapia para correção da desidratação sem sobrecarga, reavaliação de creatinina, SDMA e UPC em 48–72 horas.

Caso 2 – Felino, castrado, 4 anos, cristalúria incidental

Anamnese: check-up de rotina, assintomático, sem sinais de doença do trato urinário inferior (sem disúria, hematúria ou polaciúria).

Caso 2 – Achados laboratoriais

ParâmetroResultadoReferênciaInterpretação
USG1,0481,035–1,060Adequada
pH7,06,0–7,5Normal
SedimentoEstruvita moderadaIncidentalSem sinais inflam.
Leucócitos1–2/campo0–5Normal

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

Interpretação: cristalúria por estruvita em quantidade moderada, na ausência de sinais clínicos, sedimento inflamatório ou infecção, é achado frequentemente incidental em gatos e não indica, isoladamente, necessidade de intervenção dietética agressiva ou tratamento antimicrobiano (dvm360, 2026; ScienceDirect – Crystalluria, 2020).

Conduta: nenhuma intervenção específica; orientação sobre ingestão hídrica adequada e reavaliação em consulta de rotina subsequente, evitando tratamento desnecessário de um achado incidental.

Caso 3 – Canino, fêmea, 8 anos, proteinúria em fita durante internação

Anamnese: paciente internada para tratamento de pancreatite, em fluidoterapia intravenosa há 48 horas. Tira reagente da urina de rotina mostrou proteinúria de 1+.

Caso 3 – Achados laboratoriais

ParâmetroResultadoReferênciaInterpretação
USG1,0091,015–1,045Diluída (iatrog.)
Proteína (fita)1+NegativoDiscreta
SedimentoInativo–Sem alterações
UPC0,15<0,2Não proteinúrico

Fonte: elaborado por Rafael Arrua da Silveira, 2026.

Interpretação: apesar da leitura positiva na fita, a UPC confirmou ausência de proteinúria clinicamente relevante. A densidade muito baixa, secundária à fluidoterapia intravenosa em curso, é a explicação mais provável para a leitura falsamente alarmante da tira: em urina diluída, mesmo pequenas concentrações absolutas de proteína podem gerar reação colorimétrica positiva (dvm360 – Urine specific gravity measurement, 2026). Este caso ilustra de forma direta o risco de investigação desnecessária quando a proteína é lida sem registrar e considerar a USG da mesma amostra.

Conduta: nenhuma investigação adicional; reavaliação após suspensão da fluidoterapia, se clinicamente indicada.

Aplicação clínica imediata: sempre documente USG, sedimento e proteína da mesma amostra na mesma linha do laudo. Resultados de proteína isolados, sem densidade e sem sedimento associado, não permitem decisão clínica segura – podem tanto subestimar uma glomerulopatia inicial (Caso 3 do artigo anterior desta série) quanto superestimar um achado sem relevância (Caso 3 deste artigo).

6  Discussão integrada

Os três casos apresentados ilustram por que a urinálise completa – e não a tira reagente isolada – deve ser o padrão mínimo de investigação em pequenos animais. No Caso 1, a combinação de densidade inapropriadamente baixa com cilindrúria abundante antecipou o diagnóstico de lesão tubular aguda antes mesmo de qualquer alteração clínica evidente além dos sinais gastrointestinais inespecíficos. No Caso 2, o reconhecimento de que a cristalúria por estruvita é frequentemente incidental evitou tratamento desnecessário. No Caso 3, a correlação entre densidade e proteinúria evitou investigação invasiva sobre um achado sem relevância clínica real, gerado por diluição iatrogênica durante fluidoterapia.

Esses três cenários convergem para o mesmo princípio: nenhum componente isolado da urinálise – tira, sedimento ou densidade – tem valor diagnóstico pleno sem os outros dois. A leitura conjunta é o que efetivamente permite diferenciar achados fisiológicos de achados patológicos, tema que dialoga diretamente com a abordagem multiparamétrica já discutida em publicação anterior desta série sobre interpretação do perfil renal (SILVEIRA et al., 2026).

7  Conclusão

A tira reagente é uma ferramenta de triagem valiosa, mas insuficiente quando utilizada isoladamente. O exame do sedimento urinário – células, cilindros, cristais e bactérias – agrega informação diagnóstica que a fita simplesmente não captura, e a correlação entre densidade urinária e proteinúria é indispensável para uma interpretação clinicamente segura de qualquer resultado positivo de proteína.

Do ponto de vista de rotina laboratorial, isso tem implicação prática direta: todo laudo de urinálise deveria reportar, na mesma linha, densidade, proteína semiquantitativa e achados de sedimento – nunca um desses elementos isoladamente. Analisadores automatizados de sedimento agilizam a rotina, mas resultados equívocos para cilindros e bactérias merecem confirmação por microscopia manual sempre que houver suspeita clínica relevante.

Por fim, cabe reforçar que a urinálise, tal como o perfil renal discutido em publicação anterior desta série, ganha valor diagnóstico real apenas quando interpretada como um conjunto – físico-química, sedimento e contexto clínico – e não como uma coleção de resultados isolados lidos fora de contexto. Investir tempo de bancada na leitura completa da amostra, em vez de se limitar à tira reagente, é uma das intervenções de maior custo-benefício disponíveis na rotina diagnóstica de pequenos animais, tanto para evitar investigações desnecessárias quanto para não postergar o diagnóstico de doenças estruturais do trato urinário e dos rins.

Pontos-chave para lembrar:

  • Tira reagente isolada não substitui o exame de sedimento urinário.
  • Cilindros são intermitentes: sua ausência não exclui lesão tubular ativa.
  • Cristalúria não é sinônimo de urolitíase, especialmente estruvita em quantidade discreta a moderada.
  • Nunca interprete proteína da tira sem registrar a USG da mesma amostra.
  • USG isostenúrica em paciente desidratado é sinal de alerta para disfunção renal.
  • Amostras devem ser processadas em até 1–2 horas para evitar artefatos pré-analíticos.

Referências

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Como citar este artigo (ABNT NBR 6023)

SILVEIRA, R. A.; WARMLING, B.; CARDOSO, E.; RYCHESKI, M. Urinálise: além da tira reagente – o sedimento urinário e a correlação densidade/proteinúria na prática clínica. Blog Científico Scientia Labs, Florianópolis, 2026. Disponível em: scientialabs.com.br. Acesso em: [inserir data].

Rafael Arrua da Silveira

Farmacêutico Bioquímico, MSc, Consultor Científico, Estudante de Medicina Veterinária

Institutovet | Hospital Veterinário Florianópolis | Scientia Labs

srafs2013@gmail.com

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